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Terminal da Lapa
e a proposta
de um Bonde Moderno

Michel do Vale

A apropriação de Lelé sobre o programa preexistente do Transcol (Plano de Melhorias do Transporte Coletivo) e as modificações e ajustes que propôs foram inteiramente vinculadas a uma intenção estratégica de revalorização da região central pelo argumento da cultura e pela afirmação do caráter popular daquele espaço. Tal operação simbólica – no campo do significado cultural daquela região – e concreta – no campo dos usos e hábitos populares – foi resolvida conceitualmente por Lelé através da reestruturação da circulação e reorganização dos transportes públicos internamente ao Centro e na sua conexão com os demais bairros.

Lelé se apropria das diretrizes técnicas de descongestionamento do tráfego no Centro e da racionalização da circulação no circuito Campo Grande-Sé através da proposição de um sistema original de Bonde Moderno que, junto a uma série de ações de ordenamento da circulação interna, reorganização do comércio informal e fomento de atividades de lazer e cultura populares, comporiam melhorias ambientais necessárias à retomada dos espaços livres pela população e potencialização da sua fruição atrelada aos usos cotidianos.

Tal proposição, para ser viabilizada, necessitava conjugar qualificação ambiental e fluidez de circulação interna ao acesso da população dos diferentes bairros, através dos principais corredores de transporte, à região central. Nesse arcabouço, a peça-chave da requalificação da área central e da reorganização dos transportes: a Estação de Transbordo da Lapa (ETL) [1]​

No projeto de Lelé, entretanto, além de ser uma estação de transbordo como previsto inicialmente, ela adquire o perfil de estação de integração intermodal, ao prever a utilização do sistema de ônibus integrado aos bondes: daí sua configuração em dois pavimentos:

“Aliás, quando eu tinha feito o projeto da Lapa na gestão anterior do Mário, esse projeto já tinha a concepção de entrar com um sistema leve sobre trilhos no pavimento inferior. Então nós tínhamos o pavimento inferior para o sistema leve, fazendo integração com os ônibus convencionais no piso intermediário e o piso de cima para pedestres. Essa era a intenção da Lapa, que infelizmente não obedeceu ao projeto desde a saída." [2]

Lelé ajusta a implantação da estação; revê o posicionamento dos ônibus nos pontos de parada, visando a facilitação nas manobras chegada/saída; cria uma estrutura de apoio no edifício sustentado por tirantes e que integra os dois pavimentos; e ainda propõe uma conexão de qualidade e conforto para os usuários ao eixo da Avenida Joana Angélica através da implantação de escadas rolantes, inéditas em terminais urbanos nessa época na Bahia, porém necessárias em função da grande demanda.

 O Terminal toma forma, portanto, através da sobreposição de dois planos destinados a plataformas de embarque e desembarque, interligados em sua cabeceira noroeste – engastada no anfiteatro natural do Vale do Tororó, nos fundos do Convento da Lapa – através de uma edificação estaiada, com pilares centrais e lajes em balanço, que evitam interferir nas vias de retorno dos veículos. Tal edifício, apesar da robustez de sua estrutura central, apresenta-se na paisagem de forma diluída, tanto em função de sua horizontalidade – transversal ao sentido do anfiteatro natural – quanto em função da leveza, resultantes de sua abertura para a paisagem, através de um continuum de varandas delimitadas pelas linhas das lajes e dos guarda-corpos que, em escala e conjunto, aparentam esbeltez.

1. Autor do projeto da Estação de Transbordo da Lapa (ETL): João Filgueiras Lima; arquiteto coordenador: José Eduardo Mendonça; arquitetos colaboradores: Dimitri Tavares Vila Nova, Paulo  Fukunaga, José Fernando Minho, Agustin Garcia; Engenharia de Tráfego: José Raimundo Rego, Ângela Schallenbach, Oscar Pires de Aragão Melo Neto, Maria de Salete Almeida e Silva; Estrutura: Projectum Eng. Ltda.; Projeto geométrico, pavimentação e drenagem: João Coelho da Costa, João E. M. Botelho, Paulo Oliva; Instalações e iluminação: Kouzo Nishiguti, Eliana Sallenave; Projetos Especiais: Mariano Casañas; Comunicação visual: Antonio Carlos B. Sales; Paisagismo: Beatriz Marchioni Secco; Construção: Construtora Soares Leone.

2. LIMA, João Filgueiras. Entrevista a Michel Vale, Salvador, 15 de outubro de 2013.

Prefeitura
Palácio Thomé de Souza

Michel do Vale

Em 16 de maio de 1986, menos de 5 meses após tomar posse em sua segunda gestão como prefeito da cidade, Mário Kertész inaugura a nova sede da Prefeitura: o Palácio Tomé de Souza. O projeto criado por Lelé era já um marco da gestão: além dos impressionantes 14 dias que levaram a sua montagem, significava o retorno físico da administração ao Centro Histórico, afirmando na prática o discurso de reaproximação do Centro, para o reencontro da cidade (por meio do seu núcleo administrativo) com sua identidade original e a afirmação de Salvador como capital cultural do Brasil.

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Prefeitura – Palácio Thomé de Souza

Michel do Vale

Escolas
da FAEC

Michel do Vale

As escolas produzidas pela FAEC na segunda gestão do prefeito Mário Kertész eram desdobramentos diretos das experiências de Lelé em Abadiânia (GO), com Frei Mateus Rocha, e Rio de Janeiro, com Darcy Ribeiro e Leonel Brizola.

O modelo baseava-se na utilização de calhas de drenagem no perímetro da construção; pequenos blocos para fundação; pilares com condução interna de águas pluviais; placas cimentícias de piso; elementos de vedação externa e divisórias internas em formato de “C”, perfazendo paredes duplas que melhoravam o conforto térmico interno; telhas, capas e sheds [1] para cobertura, servindo para iluminação e ventilação; e reservatório de água.  Além desse conjunto de elementos em argamassa armada, foram especificados elementos de marcenaria com painéis artísticos de Athos Bulcão, portas pivotantes que perfaziam o fechamento lateral das salas para as varandas-beirais ao e que constituíam as fachadas das escolas.

Em Salvador, essas construções ganham um segundo pavimento – por conta da necessidade de melhor aproveitamento das restritas áreas disponíveis em favelas e bairros periféricos ou para implantação mais adequada em lotes de formato e/ou topografia irregulares, desde que seguissem a modulação das peças estruturais.

Neste novo projeto, são contabilizadas cento e oitenta peças projetadas e produzidas pela FAEC, e se caracteriza um sistema semiaberto, compatível com peças de serralheria, entre outros componentes não-exclusivos do sistema de edificação das escolas. 

Foram produzidas, através do Programa Escola para Todos/Todos para Escola, um total de doze escolas (Abaeté, Pau Miúdo, Vale da Federação, San Martin, Plataforma, Marotinho, Cidade Nova, Palestina, Sussuarana, Pituaçu, Paripe e Coutos), além das encomendas do Governo do Estado de duas escolas (Boca do Rio e Beiru). 

Lelé justifica a adoção do padrão pré-fabricado, pelo que ele denomina de arquitetura transitória, pelo critério econômico e em função da escassez de recursos e da enorme demanda existente

Para Educação, a gente pensa o seguinte: tem muito pouco dinheiro para a Educação, tem muito pouco dinheiro para a Saúde, se a gente fizer uma obra cara, evidentemente, menos pessoas vão ser atendidas – e há uma demanda gigantesca! Então, a gente tem que procurar, no projeto, fazer uma coisa que tenha certa qualidade, mas que seja econômica, o que eu chamo de arquitetura transitória. E eu acho que o nosso país, rico, com nossas carências todas, ele tem que se apoiar na arquitetura transitória, mais barata e bem mais econômica do que uma arquitetura com todos os recursos que você tem de tecnologia. Então, se você faz uma escola mais barata, evidentemente sobra mais dinheiro para comprar computadores e outras coisas. Então, eu acho que a preocupação com a economia tem que ser grande nas escolas, nesses programas sociais. [2]

1. Dispositivo na cobertura, configurado como uma abertura na vertical, cuja função é permitir iluminação e ventilação ao ambiente interno.

2. Cf. LIMA, João Filgueiras. “Entrevista à Mariana Fortes Goulart”, in: GOULART, Mariana Fortes. Conforto Térmico no Colégio de Aplicação Pedagógica da Universidade Estadual de Maringá: Proposta para Melhoria do Desempenho Térmico de um Antigo CIAC. São Carlos: IAU USP, 2014 (dissertação de mestrado), p. 68.

Creches Mais
FAEC

Michel do Vale

A experiência com as creches na mesma gestão evidencia o desenvolvimento da tipologia escolar e era ainda consequência da vontade do ente solicitante, que desejava uma imagem para a edificação que a distinguisse em meio aos conjuntos de moradias precárias, de tal forma que criasse uma marca da ação do Estado no setor. A encomenda das creches era parte do Programa MAIS – Movimento de Ação Integrada Social da Bahia, em um total de 27 edifícios, destinados a acolher cerca de quatro mil crianças carentes. Tal iniciativa partiu do governo do Estado, na figura da primeira-dama, Yolanda Pires, que controlava a máquina assistencial e justificava a construção das novas creches, simples, sem sofisticação, porém com um modelo “bonito e humanizado”, que deveria ser facilmente identificável na paisagem.

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Creches Mais

Michel do Vale

Creches Mais

Passarelas

José Fernando Minho

De 1986 a 1987 Lelé, projetou 13 passarelas para o programa do Transporte de Massa de Salvador a serem construídas pela FAEC - Fábrica de Equipamentos Comunitários de Salvador. Destas, foram concluídas 12: Imbuí, Avenida Vasco da Gama 1 e 2, Avenida Bonocô 1, 2, 3 e 4, Avenida Centenário, Avenida Antônio Carlos Magalhães (Colégio Teresa de Lisieux), Iguatemi, Saramandaia, Barris 1 (não concluída) e Barris 2.

Assim, Lelé descreveria o projeto:

Em 1998, através do CTRS - Centro de Tecnologia da Rede Sarah, Lelé projetou e construiu a passarela de Pernambués sobre a Av. Luiz Vianna Filho, que permitia o acesso ao Hospital SARAH através de uma portaria a ela incorporada que atualmente já não existe. Esta passarela apresentava melhorias em relação às primeiras no que diz respeito sobretudo aos vãos entre apoios que poderiam ser de até 50m.

As passarelas de Lelé ainda fazem parte da paisagem da cidade. Mas passaram a conviver com outras que mesmo inspiradas nas suas, ficam a dever em leveza, graça e beleza.

O projeto para passarelas padronizadas nas avenidas de vale de Salvador se baseia na ampliação de um sistema estrutural simples de treliças metálicas em aço especial resistente à oxidação, vencendo vãos de até 35m e apoiadas em torres circulares, nas quais se articulam eventuais derivações ou os acessos (rampas, escadas ou escadas rolantes). Essas rótulas que possibilitam mudanças de direção ou de nível nos percursos das passarelas são essenciais para compatibilizar, de forma harmoniosa, sua implantação com o relevo caprichoso da cidade.

Os pisos são constituídos de placas de argamassa armada pré-moldadas e rejuntadas no local, formando um conjunto rígido que contribui para o contraventamento da estrutura.

Foram previstas coberturas abobadadas em policarbonato transparente ou em argamassa armada. Julgamos que se trata de um complemento de muita importância, não apenas pelo conforto que proporciona em função das características do clima da cidade, mas sobretudo como um atrativo que induza a população a utilizar esses equipamentos. [1]

1.  João Filgueiras Lima, Lelé/ [organizador/ Editor Giancarlo Latorraca; versão para o inglês/translation into English Cecil Stuart Birkinshaw, Katica Szabó]. São Paulo: Instituto Lina Bo e P.M. Bardi; Lisboa: Editorial Blau, 1999.